Fred Barreto pensou que tocaria o hino luxemburguês, tal como fez na festa da subida ao trono do Grão-Duque Guillaume. Mas não. Ainda não sabia, mas teria apenas algumas horas para fazer os arranjos e gravar uma versão instrumental de um tema do qual, também ele, é fã: “Hurricane”, de Bob Dylan. Tema que tocou esta semana perante Guillaume. E a ideia partiu do próprio chefe de Estado.
Mas recuemos um pouco. Fred Barreto, 50 anos, guitarrista principal do Fred Barreto Group, foi um dos artistas que subiu ao palco do Glacis, em outubro do ano passado, onde teve lugar um mega espetáculo para celebrar a entronização de Guillaume. Tocou o hino luxemburguês numa guitarra elétrica especialmente concebida para o evento e ‘made in Luxembourg’, conta ao Contacto. O instrumento foi feito num ateliê luxemburguês, o Melusina Guitars, pintado e assinado por artistas também locais. As cores são o vermelho-branco-azul da bandeira luxemburguesa, com a sereia Melusina em grande destaque. Atrás, as assinaturas dos artistas que atuaram na entronização.

Questionado sobre a razão pela qual foi o escolhido para tocar numa data tão importante para todo um país, Fred não esconde alguma timidez: “Vou dizer o que me disseram, não que eu concorde com isso, para não parecer arrogante”, avisa. Tratando-se de uma guitarra elétrica, procuravam alguém com uma “presença rock and roll”, um guitarrista bom. Fred estava a tocar em Esch, um dia, no ano passado, quando foi abordado por um dos elementos da equipa que estava a trabalhar na guitarra e por Tom Gatti, músico e produtor. “Viram-me, olharam um para o outro e disseram ‘é o Fred’”, conta. “Lembro-me que um deles se aproximou de mim e disse ‘estás livre no dia tal para tocar num grande evento?’. E eu disse que sim. Perguntei que evento seria e ele disse ‘não posso dizer, mas é tipo olimpíadas’”, recorda, entre risos. Só depois soube que tocaria na entronização, momento histórico: “Fiquei muito honrado porque há tantos guitarristas bons no Luxemburgo e de repente resolveram chamar-me para tocar o hino”.
Desde a criação da guitarra que o objetivo final era que esta fosse, posteriormente, oferecida ao soberano. E esse momento chegou: Fred soube há uns dias que o instrumento seria oferecido a Guillaume durante uma visita do Grão-Duque ao Rocklab, espaço de estúdios da Rockhal consagrado aos músicos locais. Tal como no dia da entronização, Fred tocaria durante alguns instantes para o Grão-Duque, antes de passar a guitarra para as mãos do seu novo dono. Por isso, pensou, que, como no dia 4 de outubro, tocaria o hino luxemburguês. Só que não.
“Fred, cancela. O Grão-Duque quer ouvir ‘Hurricane’ do Bob Dylan”
Uma semana antes da data da visita do chefe de Estado à Rockhal, Fred estava em casa quando lhe ligaram. Era o diretor da Rockhal, Olivier Toth. “Fred, cancela. O Grão-Duque quer ouvir ‘Hurricane’, do Bob Dylan”, disse-lhe. Uma música de homenagem a um afro-americano preso por um crime que não cometera.
Na preparação da visita à sala de concertos, Guillaume terá então manifestado que, desta vez, gostaria de ouvir ‘algo diferente’: “Hurricane”, de Bob Dylan. “Para minha sorte, eu conheço a música. Gosto muito de ‘Hurricane’ e disse ‘ok, está bem’”, recorda. E foi nesse momento que Olivier lhe deu outra informação, mais ‘urgente’: devido às questões de protocolo, Fred teria de gravar, o quanto antes, a versão que iria para que a Rockhal a pudesse enviar à equipa da Corte Grã-Ducal. “Sentei-me, pensei e disse ‘primeiro tenho de tomar um café’”. Só depois de sair para tomar um café e comer um croissant é que se sentou a tocar para criar o arranjo para guitarra elétrica. Algo que tivesse “acordes e melodia ao mesmo tempo, que lembrasse a música”. “Quando achei que estava bom, gravei. Gravei umas dez vezes até chegar à melhor versão”, partilha.
"Guillaume é muito simpático. Conversámos e quase lhe dei uma palmadinha no braço"
Fred acredita que Guillaume, amante de música, vai usar a guitarra. “Espero bem [que o Grão-Duque desfrute da guitarra] porque é uma guitarra muito boa, com um som lindo”, diz. “É uma guitarra leve, boa para quando se vai tocar concertos porque não é um instrumento muito pesado. Os acabamentos estão muito bem feitos e o braço da guitarra é muito bom”, acrescenta, na linguagem de músico.
Na Rockhal, Fred voltou então a tocar para o chefe de Estado, desta vez um tema de Bob Dylan, na presença de vários outros artistas e também do ministro da Cultura. “Mais uma vez fiquei mais do que honrado. Era o único não luxemburguês ali”, refere.
Depois disso, o Grão-Duque ficou a conversar com Fred e com os artistas. “Dei-lhe dois vinis da minha banda e ele gostou muito da capa de um deles, que é uma foto de uma pintura do meu pai, artista plástico no Brasil”. “Conversámos um pouco. Ele é muito simpático, interessado, fez perguntas”, vinca, lembrando que o soberano fez questão de falar com todos os presentes. “Ele deixa-nos tão à vontade que ficamos com a impressão de que estamos a conversar com um amigo. Houve um momento em que eu quase lhe dei uma palmadinha no braço, como se faz com um amigo”.
Texto: Diana Alves | Fotos e vídeo: Maison du Grand-Duc